Janine Mathias. (foto de Luciano Meirelles)

Semanalmente publico entrevistas com brasileiros e argentinos que vivem na terra de Leonel Messi, ou no Brasil. Estou cada vez mais convencido que a tal rivalidade entre Brasil e Argentina é uma bobagem. Os dois povos admiram-se profundamente e, mais que isso, respeitam-se. Reconhecem no outro qualidades inegáveis, principalmente no campo cultural. Graças às entrevistas, Argentina Conexão Brasil descobriu a cantora brasiliense radicada em Curitiba, Janine Mathias, reconhecida por sua voz singular e cadência, cuja formação musical foi germinada no Samba. Janine é filha do sambista Willians Mathias e sobrinha do passista Futica, que são irmãos gêmeos, ambos integrantes atuantes das rodas de samba de Brasília, nos anos 1980. Nesta entrevista, Janine revela que, com o advento do Spotfy, descobriu que os argentinos aprovam suas músicas e que eles estão em segundo lugar entre os que mais a ouvem. Ao final da entrevista, links para você ver e ouvir Janine Mathias – uma autêntica representante da Música Preta Brasileira.

Francis Ivanovich – Janine, fale um pouco sobre sua história

Janine Mathias – Começou na infância. Minha família é musical. Meu pai cantor e sambista. Era tudo muito natural e musical e eu não me dava conta do quão importante era tudo aquilo. Na adolescência cantei na igreja e não via nenhuma relação com a profissão de cantora, sempre muito envolvida com o RAP. Levei meu irmão mais novo para rodas de rima e ele assumiu a profissão antes que eu. Em 2009, fiz minha primeira participação no RAP, o que me levou a gravar um EP que mudou minha vida, por produtora independente de Curitiba. EP “EU Quero Mergulhar”. Depois fui me envolvendo e assumindo as poesias e composições que já tinha, comecei a cantar nos bares em Conciliação, enquanto trabalhava num shopping. Fui fazendo várias músicas, idealizei com Lucas Cabanã “O Samba da Nega”, uma festa dedicada ao samba. Sempre convidando DJs e artistas, também uma forma de alimentar os circuitos de barra e espaços culturais que levantaram minha carreira. Fiz participações musicais e em 2018 lancei meu primeiro disco, intitulado Dendê. Ele foi feito para que essa voz mostrasse sua versatilidade. A Música Preta Brasileira que eu canto e sou, RAP, SAMBA, FUNK, R&B. Sou apaixonada por essa trajetória, faço agora cinco anos de vida como profissional da Música.

Tradição: sambista Willians Mathias, pai de Janine Mathias.

Francis Ivanovich – Como nasceu a relação com a Argentina?

Janine Mathias – Eu não sei explicar. Só sei agradecer como a Argentina está em segundo lugar nos meus dados de ouvintes. Em 2018 gravei uma faixa de RAP com um coletivo pelo selo Índio. Tive também um DJ que era de Madri, o Álvaro Galeano. E o Robertinho Foods que atua em Buenos Aires tem me dado a oportunidade de estar mais perto do público Argentino e dos Brasileiros que moram naquele país.

Francis Ivanovich – Como você está vendo o Brasil de hoje?

Janine Mathias – Um país que precisa ceder à força da natureza. Nosso país foi tomado por uma corrupção e divisões que só trazem opressão. É muito triste perceber a destruição. A Amazônia e as populações negra e indígena dizimadas. A violência contra a mulher cresceu nessa pandemia. Cercados de matas estamos em um racionamento de água, é um retrato caótico. Temos muitos lutando por melhorias, mas o que realmente precisamos é de um governo que pense em nossas riquezas naturais como fonte para o nosso redor. A fome se alastra, faltam políticas públicas essências e a educacional que visem o progresso de toda a nação e não de uma parte dela.

Francis Ivanovich – O que mais te incomoda na música brasileira?

Janine Mathias – A música brasileira não me incomoda, ela é linda. Nós somos vítimas de um tipo de distribuição que não é sobre nós. Conheço artistas incríveis que poderiam alcançar milhões, porém uma coisa puxa a outra e estamos acostumados a consumir somente o que está na propaganda. Ou valorizar o que tem grande alcance. A minha busca é o indivíduo. Se eu alcancei uma pessoa, acredito muito que preciso cultivá-la. Mas buscar investimento é essencial. A música não anda sozinha, mas o engajamento real é uma potência. Mas confesso que às vezes cansa, não é? Porém, não existe nada mais lindo que uma música feita pra alcançar pessoas antes de qualquer número. A música brasileira é linda, pulsante, e só precisa ser mais valorizada. Quantos artistas atuais você conhece? Quantas vezes você envia uma música pra quem você ama? Ou simplesmente colabora divulgando um artista? Não é sobre o que nos incomoda, é sobre o que queremos mudar para melhorar.

Passista Futica: tio de Janine Mathias.

Francis Ivanovich – Como a pandemia te afetou como artista e pessoa?

Janine Mathias – De início eu só chorava. Fiquei desesperada. Depois comecei a receber muito carinho e ajuda. Uma grande amiga que tem o Old Cat Estúdio me propôs um videoclipe com os posts que eu recebia dos fãs. Depois transformei essa ação em um pré-lançamento criativo. Um videoclipe na caneca. Temos uma empresa de serigrafia e canecas personalizadas. Agora estou aproveitando pra lançar coisas que não havia terminado ou pela própria correria ou expectativa de mercado que havia deixado pra trás. Lançamos uma música especial para Yemanjá, a Rainha do Mar. A produção é um coletivo de artistas negros do Rio de Janeiro, com a fotógrafa Preticia Jerônimo, de Curitiba. Divido a faixa com Rodrigo Brandão um dos nomes mais respeitados da nossa música.

Francis Ivanovich – Planos para a Argentina em 2021?

Janine Mathias – Muitos shows na Argentina. Não vejo a hora de chegar esse momento.

Links para conhecer os trabalhos de Janine Mathias

Canais de distribuição musical de Janine Mathias. https://linktr.ee/janinemathias

Yemanjá, a Rainha do Mar : Spotify

Índio, Volume 2 Spotify

Clipe – Bom dia