Beto Caletti (Divulgação)

Argentina Conexão Brasil entrevista na última semana de agosto o músico argentino Beto Calleti. Para nosso Roberto Menescal, o violonista transita pela música popular brasileira com mais desenvoltura do que a maioria dos brasileiros; Fã do músico, Ivan Lins reconhece em Beto é um compositor eclético, de talento e gosto apurados. Nesta entrevista, Beto Caletti conta como a MPB e a Bossa Nova entraram na sua vida, a influência de artistas como Chico Buarque e Tom Jobim e sua relação com o Brasil. Beto Caletti já percorreu meio mundo: Brasil, México, Canadá, Espanha, Suíça, Uruguay, Inglaterra, Filipinas, Bélgica, Irlanda, Colômbia, Itália, Alemanha, Eslovenia, República Checa, Cuba e Japão….

Francis Ivanovich – Conta pra gente a sua relação com a música brasileira?

Beto Caletti – Eu nasci em Buenos Aires. Eu ouvia todo o tipo de música. Jazz, Rock, folclore argentino, tango também. Estudei música erudita, clássica, mas quando descobri a música popular brasileira, eu achei um veículo bem claro para eu me expressar, e me identifiquei imediatamente. Comecei ouvindo Chico Buarque, depois Bossa Nova, aos poucos fui me interessando pelos músicos da MPB. Foi natural para o meu jeito de tocar violão e o meu jeito de cantar. Eu me senti bem tranquilo nesse mar de música. Aí comecei a explorar, mas não deixei nunca de tocar outras músicas, mas a MPB foi a minha música principal durante muito tempo. Depois eu comecei a compor. E também compus muita música em português. Continuei fazendo músicas mais argentinas ligadas a outros ritmos latino-americanos, mas sempre com esse amor bem profundo pela música do Brasil.

FI – Quais músicos brasileiros mais te influenciaram?

Beto Caletti – Como falei o Chico Buarque. Depois foi o Tom Jobim com sua música, e o João Gilberto com o seu jeito de tocar violão. Sem dúvida, mas Ivan Lins é um músico impressionante que me marcou profundamente, por sua harmonia, o jeito de usar os acordes. Ele é para mim uma das grandes figuras da música. A que mais quero.

FI – Qual seu projeto atual?

Beto Caletti – O meu projeto atual é bem amplo. Eu sou compositor. O que eu faço é mais como compositor e arranjador. Uma mistura de músicas da América do Sul. Agora com letras em espanhol, e sempre presente uma parte do Brasil no tipo de música que eu faço.

FI – Você identifica alguma contribuição da música brasileira para a música Argentina? Há relevância nesta influência?

Beto Caletti – Muito grande a influência. Nós tivemos nossos maiores compositores depois do governo militar nos anos 80. Os nossos gênios estavam no rock e no folclore. O tango nessa época estava sendo considerada uma música do passado, não era muito tocado. O Folclore foi renovado, mas o rock argentino foi bem forte. Eu estou falando de misturar as músicas daqui com a de outros lugares. Nós vimos na música do Brasil uma música bem de raiz. O ritmo negro que a Argentina não tem, de um jeito tão direto na percussão. O Brasil foi para os músicos argentinos sempre uma música especial. Quase todo músico aqui conhece a música do Tom Jobim, do Caetano, do Chico. E nós tivemos uma presença bem forte do Vinícius de Moraes aqui na Argentina. Ele tocava muito Bossa Nova aqui. Eu tocava Bossa Nova e aqui tinha mais público do que no Rio de Janeiro. Todo argentino conhece as canções da época da Bossa Nova. A Música do Brasil teve uma influência bem forte nos músicos e nas pessoas na Argentina. Depois veio a MPB e sem dúvida foi de muita influência também.

FI – Sua opinião sobre o governo de Alberto Fernández?

Beto Caletti – O governo de Alberto Fernández tem a característica de ser popular, que está pensando nas pessoas, que seja mais igual e de possibilidades para todos. O que eu queria é que fosse mais radical. É bem mais complexo do que isso. A América Latina está num tempo de governos de muito individualismo. O que se chama de neoliberalismo, governos do dinheiro. E as pessoas que apoiam esses governos alinhados com os Estados Unidos querem é conseguir melhores condições para elas mesmas, com pouca solidariedade. O que eu posso dizer do Governo de Alberto é que tem tendência à solidariedade. Isso para mim é importante. Não é pouca coisa nos tempos que correm.

FI – O que você espera com o fim da pandemia na Argentina?

Beto Caletti – Espero que volte ao normal e seja diferente. Que seja mais solidário, a pandemia mostrou o que já vinha acontecendo antes. Quem é individualista continuará sendo individualista. No meio de uma pandemia ou de qualquer coisa. A marcha contra a quarentena e o trabalho do governo que houve em Buenos Aires (aconteceu em 18/08), querendo uma coisa chamada liberdade. (riso irônico) A liberdade que eles querem é a liberdade para eles, que não incluem as outras pessoas. A liberdade deve ser para todo mundo, a liberdade de ter um sistema de saúde bom para todos. O que espero com o final da pandemia? Eu não sou muito otimista enquanto ter uma mudança na nossa mentalidade, mas sempre há uma esperança. Que a vacina não seja só para os que tem mais dinheiro. O que eu desejo é igualdade.

Site do artista: http://betocaletti.com/