Ricardo Dubin

Há 20 anos o escritor e jornalista Ricardo Dubin vive e trabalha em San Salvador de Jujuy, província localizada ao Norte/Nordeste da Argentina, fronteira com o Chile e a Bolívia, a 1500 quilômetros de Buenos Aires. Região montanhosa com cerca de 300 mil habitantes, Jujuy, conhecida como a Quebrada de Humauaca, é Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco: trata-se de um vale de 150 quilometro de extensão marcada por montanhas com belíssimas cores. Em Jujuy acontece um carnaval tão emblemático quanto o do Rio de Janeiro. As “comparsas”, agremiações equivalentes aos nossos blocos carnavalescos, animam as ruas de Purmamarca, Volcán, Humahuaca, Tumbaya, Tilcara, que integram a Quebrada de Humahuaca. Argentina Conexão Brasil conversa com o jornalista que está há 20 anos em Jujuy e será o cicerone nesta viagem. Dubin se revela simpático ao ex-presidente Lula por uma razão particular: ter realizado em passado recente um trabalho de inclusão social tão necessário no continente.

Francis Ivanovich – Fale como você chegou a Jujuy.

Ricardo Dubin – Nasci em Buenos Aires. Vivo em Jujuy há 20 anos, trabalhando para um jornal local, a Tribuna de Jujuy. Quando cheguei aqui na Quebrada de Humauaca, e não tinha ideia do que acontecia. Sabia na época que era uma região com pouco desenvolvimento econômico, a atividade turística ainda era incipiente comparada ao que é hoje. Pouco a pouco eu fui tomando consciência como era a construção da notícia na região, a voz da gente do campo, da montanha, com uma cultura de fortes raízes, onde aqui a presença humana há registros de pelo menos mil anos. Também trabalhei no início para uma instituição do Ministério da Educação, num projeto para entrevistar a gente sobre seu passado, sobre sua produção artística, sua cultura, artesanato, seus próprios saberes. Este trabalho resultou em materiais gráficos como revistas, pequenos livros, e depois material audiovisual que contém relatos mais fiéis sobre sua própria cultura, seu mundo, e como se mostra. Através do meu trabalho vou conhecendo a faceta humana.

FI – O que é o “Projeto Intuiciones”?

Ricardo Dubin – É uma maneira de buscar um espaço virtual para o Intuiciones Arte e Cultura Jujuy (https://intuiciones.com.ar/). É o resultado de ter trabalhado muito tempo com a cultura local. Mais do que mostrar o que eu penso, é dar espaço aos trabalham como artistas, os pintores, músicos, escritores, poetas, e mostrar as manifestações religiosas, as cerimônias, o artesanato de grande qualidade, a criação anônima. É uma forma de compartilhar toda essa experiência. É uma cultura muito forte. Jujuy tem toda essa cultura coletiva, mais social. Uma cultura de origem pré-hispânica. Uma cultura riquíssima. Por meio de entrevistas, crônicas, registro fotográfico, audiovisuais vamos copilando essa produção, nossos costumes. Esse trabalho busca encontrar o que define, expressa essa cultura de Jujuy, a cultura, a arte e a paisagem são nossas forças, abarcando outras manifestações num sentido mais amplo, como a culinária, a música, pintura.

FI – Como está a situação dos povos indígenas na região?

Ricardo Dubin – Quando um lugar passar a fazer parte do calendário turístico, o povo local começa a tomar consciência sobre suas particularidades, suas próprias características, sua identidade ao conviver com o visitante. Esse é um processo que vem ocorrendo na região nos últimos 20 anos. Paralelamente há também um trabalho muito forte da Igreja Católica. Os povos originários nessas duas décadas têm tomado mais consciência sobre si mesmo. A terra é um vínculo importante para o camponês expressar sua cultura. Com o desenvolvimento da atividade turística, houve uma absorção dessa mão-de-obra camponesa. Com isso, o tema da terra ficou mais restrito a povos isolados. Outro tema importante social aqui em Jujuy tem sido a educação. Uma educação que inclua cada vez mais os povos originários, um direito que tem qualquer cidadão na Argentina. Mas uma educação que respeite a identidade desses povos. O trabalho educacional na região foi bem forte. Esses são os temas centrais nos debates, a educação, identidade e propriedade da terra. São os temas que marcam mais os povos nativos.

FI- O que você sabe sobre a situação dos indígenas brasileiros?

Ricardo Dubin – O que nos chega é pelos meios de comunicação. Sabemos que os meios de comunicação estão sem prestígio, sobretudo a chamada grande imprensa, que muitas vezes representa o poder. Além disso, há uma diversificação muito grande de notícias nas redes sociais. Muitas dessas informações são confusas, erradas. As notícias que nos chegam são pelas redes sociais. Aqui quando eu entrevistava as pessoas sobre questões da identidade indígena, eu tinha mais informações sobre povos do Equador, Peru e Bolívia, norte do Chile e Argentina. Não tenho como opinar sobre a situação dos povos indígenas brasileiros pois como disse o que nos chega é pelas redes sociais e não sei se tenho condições de opinar.

FI – O Carnaval de Jujuy, há alguma influência do carnaval brasileiro?

Ricardo Dubin – Não há uma influência mútua. Se há alguma influência se deve a religiosidade européia, que é o começo da Quaresma, 40 dias antes da Semana Santa. Os espanhóis e os portugueses quando invadiram a América trouxeram suas crenças, sua história. O carnaval para nós em tem a ver com as colheitas, com os rituais para pedir prosperidade. Para celebrar a fertilidade do solo e honrar a divina Mãe Terra, a Pachamana. Nos últimos anos tem havido a tentativa de transformar o carnaval em um espetáculo, um show. Mas o carnaval aqui é essencialmente uma festa de rua, quando se vai de casa em casa e se convida as pessoas e as famílias para participarem do carnaval. Por essa alegria as pessoas oferecem comidas, bebidas. O “Diablo” é o personagem central da festa.

FI – A pandemia está afetando Jujuy? (Ao fechar esta entrevista, Jujuy registrava 3.655 casos confirmados, 1673 recuperados e 89 mortos)

Ricardo Dubin – Jujuy era a província como menos caso. Isso nos permitia ter alguma movimentação turística interna. Com o agravamento, afetou a atividade turística que hoje movimenta economicamente a região. Graças ao governo, com apoio, subsídios para pagar salários das pequenas empresas, não houve a paralisação total da economia, das demais atividades, como mineração, plantação da cana-de-açúcar, consumo da folha de coca. A origem da transmissão está na suspeita que dois policiais teriam se contaminado ao irem à Bolívia para fazer contrabando de folha de coca. Aqui na região mascar a folha de coca é um costume muito arraigado. (O governo local baixou decreto em que quem contrabandear folha de coca será multado pesadamente) Estamos num momento delicado na pandemia, com a expectativa de que a reabertura da atividade turística demore. Quando passar esta pandemia, seria maravilhoso ter os brasileiros aqui. Os brasileiros vão se surpreender. Vão também encontrar uma paisagem que é muito particular. Aqui o turista encontra dois aspectos, um que é geográfico, visual, fotográfico, e o segundo aspecto é a cultura.

FI – Uma última questão: qual sua opinião sobre o Governo de Alberto Fernández?

Ricardo Dubin – Sempre tive mais afinidade com governos com um recorte nacional e popular, mais inclusivos, que repartam a riqueza seja na America Latina ou em meu país. Alberto é um político de grande capacidade, mas está diante dos resquícios do liberalismo na Argentina, deixado pelo governo de Mauricio Macri que fez um trabalho destrutivo, deixou um país profundamente endividado, em péssimas condições. E apareceu esta pandemia que tira o foco do atual governo. É um bom governo até agora, preocupado com as pessoas. No caso do Brasil, é uma situação oposta. Por minha afinidades políticas tenho mais simpatia por Lula, pela inclusão social que ele realizou.

Link no Conexão Jornalismo: http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/novasmidias/argentina-conexao-brasil-em-jujuy,-um-carnaval-tracos-pre-hispanicos-video–67-52619?fbclid=IwAR0EA-vfzsHOtymworhb1CFFGQ0QZcZeshzMH9cTMvdZSMM9LlrL3OnFtbE