Tiago Melo

Argentina Conexão Brasil apresenta Tiago Melo, 35 anos, conhecido como Tiques, cujo o nome artístico é Uaxac Eznab. Nascido em Curitiba, há oito anos vive na cidade de Buenos Aires. Formado em educação física, deixou o Brasil para estudar artes e hoje é um dos mais atuantes produtores culturais na cidade, atuando em Almagro (bairro de classe média da capital).

Assumidamente de esquerda, é um dos produtores do bloco carnavalesco Cordão de Prata, há dois anos. Ele também organiza uma festa, encontros de poesia e concilia seu trabalho na área comercial numa empresa de tecnologia, com seu projeto artístico chamado Decreto 13:20. Esse projeto critica questões sociais, políticas e econômicas usando as artes visuais.

O curitibano diz que, com a pandemia, por poder trabalhar em casa, deu novo fôlego ao projeto. Nesta entrevista, ele diz não reconhecer mais o Brasil desde o golpe contra Dilma. Em meio a tanta crise no Brasil, é um alento ver um brasileiro feliz e fazendo o que gosta em outras terras.

Por que você decidiu viver em Buenos Aires?

Uaxac Eznab – Eu vim para Buenos Aires em janeiro de 2012. A vinda não foi planejada. Sou natural de Curitiba onde sempre vivi. Tinha um namorado e ele veio fazer faculdade. Ele me convidou para vir junto? Decidi que sim. Os motivos para ter vindo foi o desejo de aprender um novo idioma, viver em outro país, sair de Curitiba, sair da casa dos meus pais, estudar artes, ou seja, foi um pacote de novas coisas que eu queria experimentar, viver. Eu vim junto com ele. De ônibus, inclusive. Logo que eu cheguei eu me inscrevi na Universidade de Artes, em vários cursos, oficinas que tinham a ver com artes. Eu sou formado em Educação Física, sou professor. No Brasil eu sempre atuei em projetos de extensão, em universidades. Fui mais para o lado da pedagogia, educação física escolar. Fiz especialização mas não terminei. Fui militante do Movimento Sem Terra – MST, no setor de educação. Como não tinha passado em nenhum concurso público para dar aula em escola pública, que era um dos meus sonhos, eu não tinha nada que me prendesse à Curitiba. Neste ano, 2012, fui chamado pelo estado para trabalhar como professor, era só fazer exame físico. Era só escolher a escola. Mas aí foi uma decisão. Ou eu ficava pra sempre em Curitiba, ou me abriria para outras experiências. Foi assim que eu vim parar em Buenos Aires.

Qual sua avaliação sobre a comunidade brasileira na Argentina?

Uaxac Eznab – Essa é uma resposta complicada, na verdade. Eu acho que não existe uma comunidade brasileira na Argentina. São muitas. De distintas formas. Tem gente que vem estudar, tem brasileiro que vem para cá e só vive a cultura do Brasil, parece que nem vive na Argentina. Só consome cultura, comida brasileira. Vive entre brasileiros. No portunhol. Tem os que se entregam mais à cultural local, eu me considero desse grupo.

Há várias comunidades brasileiras aqui. Eu posso falar da minha. Tem a ver com militância, que é o Coletivo Passarinho. Ou bloco de carnaval que eu tenho produzido nos últimos dois anos. O Bloco Cordão de Prata (https://www.instagram.com/bc_cordaodeprata/), que faz parte do CEMBRA – Centro de Ensino, Investigação e Difusão de Música Brasileira, em Buenos Aires. (https://www.instagram.com/centrocembra/). É muito difícil dizer que a comunidade brasileira aqui é uma coisa só. Há grupos fora da Capital federal também. Eu avalio como uma comunidade muito diversa. Isso porque eu moro na Capital Federal. Fora daqui é uma outra Argentina, fora de Buenos Aires; são muito diferentes as outras províncias. De qualquer forma, é uma comunidade que se comunica, e a comida nos une, também pela parte artística. No meu caso, eu tenho mais contato com os brasileiros de esquerda, em Buenos Aires. Aí posso falar melhor. Nos encontramos em atos, marchas, manifestações, principalmente nesse ciclo após o golpe contra Dilma.

Manifestações culturais brasileiras, como o Carnaval, encontram receptividade dos argentinos?

Uaxac EznabSim. Muita. Posso falar da minha experiência com o Bloco Cordão de Prata. Este ano de 2020 foi o quarto desfile. Eu produzi os últimos dois anos, junto com o grupo. Uma super equipe. Este ano eu fui também ritmista. Eu participo desde o primeiro desfile como público, depois fui me aproximando. Aqui não existe bloco de rua, bloco de carnaval. É bem difícil explicar o bloco de rua para o argentino. O público não é participativo. Ele só assiste. Vai ver uma apresentação. Bloco de carnaval todos fazem parte. A gente desfila em Almagro, bairro de Buenos Aires. Muita gente idosa cantando as músicas no balcão, nas sacadas. As pessoas que estão indo fazer compras e acabam entrando no bloco. A receptividade é muito grande. A gente tem de ter muito cuidado, pois vamos expressar uma cultura numa outra cultura. Tem de ter respeito. Você tem de entender que já está ocupando um lugar com outras características, outra cultura. Tem de ter cuidado para introduzir coisas novas. Mesmo os argentinos que são do bloco não entendem muita coisa, vão entendendo no processo, como a fantasia que pode ser uma crítica sarcástica, etc. Manifestações nas ruas aqui tem bastante. Eles são super receptivos as outras manifestações culturais também. Aqui tem comunidades fortes de forró, capoeira…

Como a pandemia afeta seus projetos artísticos e quais são eles?

Uaxac Eznab – Eu trabalho há três anos numa empresa de tecnologia, aqui em Buenos Aires, o que banca as minhas contas. Mas eu tenho há 8 anos um projeto artístico chamado Decreto 13:30 (https://www.instagram.com/uaxac_eznab/) que faz uma reflexão sobre as atuais condições políticas, sociais e econômicas. Para isso eu utilizo desenhos, pinturas, escultura, performance. Não tem uma linguagem definida. Esse projeto era mais intenso antes desse trabalho que me consome 8 horas diárias. Com a quarentena, trabalhando home office, eu estou retomando, pois estou tendo tempo para também me dedicar a ele. Apesar de que com a quarentena não tem como expor nos centros culturais. Já com relação ao bloco de carnaval, as aulas dos curso do CEMBRA estão sendo virtuais. Os integrantes da bateria fazem esses cursos. Isso tudo está afetando muito. Nem sabemos se vai ter carnaval ano que vem. Mas o bloco está participando de outros projetos com outras organizações culturais para viabilizar atividades durante este ano, pelo menos. Também produzi um ciclo de poesia durante o ano, que agora está parado. Produzo também uma festa que se chama Lets Have Bizarre, a última edição foi no carnaval. A pandemia não afetou drasticamente meu projetos, pelo contrário, ficar em casa me possibilitou me dedicar a eles. Claro, eu tenho o privilégio de estar trabalhando em home office, com salário integral. Eu fico em casa, um lugar que adoro. Em casa to tendo a chance de realizar processos que no contexto de estar num escritório eu não conseguiria. Fazer aqui que gosto.

Qual a imagem que você tem do Brasil de hoje?

Uaxac Eznab – Caos. Desastre total. Eu olho para traz, esses 8 anos que estou fora do Brasil, e parece uma lacuna. Eu não entendo. Eu já voltei ao Brasil mas passagens muito rápidas, e não reconheço o meu país. Não parece o mesmo lugar que eu vivi. Muitas coisas se desnudaram agora. Vejo com muita tristeza. Muito retrocesso. Muito ódio. É preciso criar novas formas de ações, resistências. A gente sabia que iam atacar o Sistema Único de Saúde – SUS. É um elemento a mais de estresse para o brasileiro nesse contexto de pandemia. Eu tenho feito um esforço para visualizar as novas formas de resistência que estão acontecendo, as coisas boas. Eu acho que isso é a maioria. O Brasil e o brasileiro vai reverter tudo isso eu tenho certeza.

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